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entrevista à Folha
Published on May 7, 2009 By askain In US Domestic

"Obama poderia fazer mais por Cuba"

Em entrevista à Folha, ex-presidente americano Jimmy Carter cobra de novo governo fim do embargo e das restrições a viagens

Democrata vê relação mais saudável entre Casa Branca e América Latina, pede maior atuação diplomática do Brasil e critica Nicarágua

SAMY ADGHIRNI
ENVIADO ESPECIAL A BRASÍLIA

Com a autoridade de quem começou a reverter a política dos EUA de apoiar regimes militares na América Latina, o ex-presidente Jimmy Carter (1977-1981) compartilhou com a Folha sua visão sobre os primeiros passos do colega democrata Barack Obama em relação à região. Em entrevista concedida na segunda-feira momentos antes de seu encontro com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Carter, hoje à frente de uma instituição que promove os direitos humanos no mundo, disse que a crise global pode acirrar tensões na América Latina.

 


FOLHA - Como o sr. vê os primeiros passos de Obama em relação à América Latina?
JIMMY CARTER - Acho que ele tem ido bem. Os contornos de sua política para a região se deram na Cúpula das Américas [realizada no mês passado, em Trinidad e Tobago]. O resultado foi muito empolgante. Ele deixou a porta aberta para Cuba e estendeu a mão a Bolívia, Equador e Venezuela.

FOLHA - Hillary Clinton disse na semana passada que os EUA estão intensificando laços com a América Latina para barrar a influência de Irã, China e Rússia na região. O sr. concorda com essa visão?
CARTER - Não gosto de encarar os EUA como força de contrabalanceamento do que quer que seja. Não acho que se trate de uma disputa para subverter as relações de certos países com Venezuela ou Bolívia. Temos laços de respeito com a região e não palpitamos sobre o que países fazem ou deixam de fazer. Além disso, não somos inimigos da China, nem da Rússia e não deveríamos ser inimigos do Irã. Obama quer uma boa relação com todos.

FOLHA - Quão perto estamos do fim do embargo a Cuba?
CARTER - Eu gostaria que acabasse hoje mesmo. Não há razão para que o povo cubano continue sofrendo. O embargo dá ao regime Castro uma desculpa para os seus próprios erros econômicos. Eles sempre dizem que a culpa é dos EUA. Na situação atual, acho que as iniciativas de Obama não foram tão boas como as das duas Câmaras do Congresso americano, que hoje está um passo adiante do presidente em relação a Cuba. O próximo passo deveria ser a remoção imediata de todas as restrições de viagem à ilha, não só para cidadãos cubano-americanos. Foi o que eu fiz quando era presidente, há 30 anos. O fim do embargo virá em seguida. Mas é claro que dependerá também de como os irmãos Castro reagirão.

FOLHA - Não lhe preocupam os ímpetos autoritários e antidemocráticos de Hugo Chávez?
CARTER - Discordamos radicalmente de algumas coisas que ele faz e diz. Acho que ele concentrou poder demais em seu gabinete em detrimento de outras instituições democráticas. Mas Chávez não é o único responsável, pois a oposição retirou os seus candidatos, criando um vácuo que lhe foi muito favorável. Isso dito, é fato que ele tem o apoio de seu povo, que aprovou livremente boa parte das mudanças que ele implementou. Enquanto as pessoas continuarem avalizando suas decisões, não se pode dizer que ele seja antidemocrático.

FOLHA - A crise global irá fortalecer ou enfraquecer os governos latino-americanos de esquerda?
CARTER - No caso de Chávez, a redução do preço do barril de petróleo certamente abalará a força de seu governo e os seus planos de dar à população melhores serviços, atendimento médico e educação. No geral, vejo uma tendência de fortalecimento da região e diminuição das violações de direitos humanos. Ver um indígena no poder [o boliviano Evo Morales] reflete essa tendência inevitável. No Equador, há algo incrível, que é a implementação de um quarto Poder fomentado pela participação cidadã.
É claro que tudo isso perturba as velhas oligarquias. Pode haver atritos e manipulação política, e a crise é profunda, mas isso não afetará os processos em curso na região.

FOLHA - Qual é a importância real da América Latina para uma Casa Branca já envolvida com Afeganistão, Paquistão, Irã e Oriente Médio?
CARTER - A América Latina será muito mais importante para os EUA do que foi nos últimos oito anos, período em que a Casa Branca praticamente só cometeu erros. Obama deixou claro que dará mais atenção à região e a tratará com respeito, o que não foi o caso de Bush, que vivia tentando interferir em assuntos internos de outros países. Será uma relação mais saudável. Vejo disposição de dialogar com Obama em todos os países da região, com exceção da Nicarágua. O discurso do presidente Ortega foi muito negativo na Cúpula das Américas.

FOLHA - São realistas as ambições do Brasil de se tornar um protagonista global?
CARTER - Eu gostaria não só que isso se concretizasse, como que o Brasil fosse mais ambicioso ainda. O país não participa apenas do processo de reconfiguração da América Latina, mas também de redefinição do cenário global. O Brasil sempre foi reconhecido por sua força econômica, mas tende a ser tímido na hora de transformar isso em poder geopolítico.
Os contornos da diplomacia brasileira são progressistas e muito responsáveis. Seria bom que essa influência tivesse alcance maior do que no passado.


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